3 de fev de 2009

Conselho de Clubes Formadores de Atletas Olímpicos

O Conselho de Clubes Formadores de Atletas Olímpicos (CONFAO) iniciou hoje atividade e têm como meta principal disputar um repasse estatal, uma fatia da Lei Agnelo-Piva, que giraria em torno de 30% do valor destinado ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB). Presidentes de Corinthians, Vasco, Flamengo, Fluminense, Grêmio Náutico União, Minas Tênis Clube, Sogipa e Pinheiros se reuniram para formar o Conselho. A Lei Agnelo-Piva determina que 2% da arrecadação bruta das loterias federais sejam repassadas ao COB e ao CPB. Ambos dividem o montante, respectivamente, em 85% e 15%, e administram a verba incluindo repasses para todas as federações esportivas. Clubes não podem ser incluídos como beneficiários das verbas públicas. Em nota oficial, o COB reconheceu a importância do papel dos clubes na formação de atletas e afirmou que entende a necessidade de maior captação de verbas por parte dos clubes brasileiros que investem em esportes olímpicos. Porém, ressalta, que a Lei Agnelo/Piva não é suficiente, pois corresponde a apenas 1/3 das necessidades. A nota ressalta que desde o início da aplicação dos recursos da Lei Agnelo/Piva, em janeiro de 2002, o COB vem contribuindo de forma decisiva para a qualificação técnica dos atletas (ler matéria arquivo Sport Marketing: COB apresenta ações) e que, portanto, os recursos da Lei Agnelo/Piva já chegam aos atletas e técnicos, sem a necessidade de entrarem nos cofres dos clubes. Nessa onda toda de repentino interesse dos clubes pelas verbas que rodeiam os esportes olímpicos, vale observar alguns pontos, por exemplo: alguns entre os clubes que agora olham os esportes olímpicos como galinhas dos ovos de ouro estão desesperados com as dívidas crescentes decorrentes de péssimas gestões que perduram há anos; alguns clubes do Conselho deixam claro que o futebol é o carro chefe dos departamentos de marketing e que, portanto, não demandam esforços de captação de recursos para os esportes olímpicos; os clubes que levantam a bandeira dos esportes olímpicos já perceberam que a Timemania, que seria a tábua de salvação das dívidas, não deu certo (ler matéria arquivo Sport Marketing: Esportes Olímpicos viram as 'galinhas dos ovos de ... ), ou seja, estão à procura de uma tábua de salvação! A pergunta que fica no ar é: caso a Lei passe a beneficiar os clubes formadores de atletas, será que as verbas serão mesmo implantadas nos esportes olímpicos? O Flamengo, por exemplo, segue com problemas fiscais e administrativos, os quais, inclusive, impedem que as verbas do patrocínio da estatal Petrobras, chegue aos cofres do clube. O time da Gávea, recentemente, graças a Patrícia Amorim, fechou acordo com a prefeitura de Niterói que irá bancar os ginastas do clube. Como é que essa verba irá chegar aos atletas? Isso ainda não foi explicado à imprensa. Será feito um contrato diretamente com os atletas? (ler matéria arquivo Sport Marketing: Ginastas fecham com Prefeitura de Niteroi) Outro ponto a ser observado é: caso os clubes resolvam dividir o mesmo pedaço de pizza, ou seja, da Lei Agnelo/Piva, o COB que atualmente é responsável por todas as ações referentes ao desenvolvimento dos esportes olímpicos terá menos verba e, consequentemente, parte das responsabilidades com os esportes olímpicos serão também repassadas aos clubes. Será que os clubes estão preparados, tem know how, para assumir responsabilidades como aquisição de equipamentos e materiais esportivos, treinamentos de atletas no exterior, garantir a participação dos atletas nas principais competições internacionais, contratação de técnicos estrangeiros, contratação de comissão técnica multidisciplinar, entre outras ações? Ou seja, com parte da verba a Lei, os clubes também terão que arcar com parte das responsabilidades que hoje estão em totalidade nas mãos do COB. Isto será benéfico para os esportes olímpicos e para os atletas? Levando-se em conta a atual situação financeira e gestão dos clubes é uma questão a se pensar! Talvez, o ideal fosse que os clubes profissionalizassem definitivamente os departamentos de marketing, tornando-os capazes de realizar projetos vencedores, tanto para o futebol, quanto para os esportes olímpicos. O que hoje, com raras exceções, não acontece. O Flamengo, por exemplo, recentemente, demitiu a ex-atleta e vice-presidente de esportes olímpicos, Patrícia Amorim, quem sempre nadou sozinha contra a maré do departamento de marketing da Gávea que apenas ruma em favor do futebol (ler matéria arquivo Sport Marketing: Marketing do Flamengo não segura esportes olímpicos). A demissão aconteceu após Patrícia articular o patrocínio da Prefeitura de Niterói para a ginástica olímpica, ameaçada pelo clube de acabar por falta de verba. O motivo certo da demissão de Patrícia ninguém sabe, mas especula-se que por ser ano de eleição no Rubro-Negro, Márcio Braga tenha se sentido ofuscado pela competência de Patrícia que pretende se candidatar à presidência. No lugar de Patrícia, Márcio Braga contratou João Henrique Areias, dono de uma empresa de consultoria de marketing esportivo; ao invés de fazer com que o departamento de marketing do clube, que já recebe salários, trabalhe também pelos esportes olímpicos. É fato que projetos com base na Lei de Incentivos Fiscais ao Esporte, a qual permite a captação de patrocínios, é uma realidade pouquíssimo utilizada pela maioria dos clubes formadores de atletas olímpicos. Por que? Porque demanda de trabalho, profissionalismo e competência. Em suma, o CONFAO pode ser, no futuro, caso consiga a meta de abocanhar parte da disputada, mas pequena pizza da Lei Agnelo-Piva, um verdadeiro tiro na história do desenvolvimento dos esportes olímpicos do país em longo prazo. É esperar prá ver quais são as reais intenções atrás de todo esse movimento, pois prá mim, ainda não está totalmente transparente as intenções e as vantagens dos clubes falidos administrarem parte da verba destinada aos esportes olímpicos. Nessa briga de gigantes, temo que o esporte acabe sendo o lado mais fraco da corda.

Deborah Ribeiro - Diretora Redação Sport Marketing