10 de jan de 2009

Esportes Olímpicos viram as 'galinhas dos ovos de ouro' para clubes

Péssima gestão, principalmente do departamento de marketing. Qual frase caracterizaria melhor o fato de alguns clubes no Brasil fecharem contratos de patrocínio que, além de vender toda a camisa do time de futebol (frente, costas, mangas), também incluem no contrato, por tabela, os esportes olímpicos? Os exemplos são muitos, mas vamos analisar o Flamengo que, recentemente, anunciou que pretende cortar gastos e que esse corte inclui, justamente, o departamento de esportes olimpicos. O clube vendeu para a Petrobras todos os direitos da camisa do time e a estatal, de quebra, ainda levou os esportes olímpicos - o que prá empresa foi uma grande jogada, já que a mesma desenvolve ações de patrocínio olímpico. Se para a Petrobras o contrato foi primoroso, para o clube foi um desastre. Vide o resultado dessa cartada de 'gênio' comprovados nos agonizantes anos em que os esportes olímpicos tentam sobreviver na Gávea. Ou seja, a novela não é nova, apenas se intercala com outros problemas do clube que estouram dia a dia na mídia. A vice-presidente de esportes olímpicos do clube, a ex-nadadora Patrícia Amorim, conhece essa novela como ninguém! Só para lembrar, no auge da crise do clube com a Nike, enquanto a mídia destacava os problemas de interrelação do departamento de futebol do clube com a fabricante americana de materiais esportivos, os responsáveis pelas modalidades olímpicas do Flamengo, cansaram de pedir 'emprestado' para o departamento de futebol, uniformes para as equipes de basquete, remo, vôlei, futsal poderem competir e, não foram poucas as vezes, que os uniformes tiveram que ser remendados. Enfim... É uma novela que não vale a pena ver de novo! É fato que com sérios problemas financeiros e de gestão, os clubes têm como prioridade o futebol, ou seja, o repasse de verba vai diretamente para o esporte bretão cujos retornos são infinitamente maiores, afinal, trata-se da paixão nacional, muito embora nos Jogos Olímpicos, o futebol brasileiro tenha se destacado graças à garra feminina, mas isso é um outro tópico que não vem tanto ao caso neste momento. Enquanto o futebol é tratado como a 'menina dos olhos' dos clubes, os esportes olímpicos seguem em segundo ou terceiro plano e negociados como 'brindes' em contratos assinados no desespero, aos 46 minutos do segundo tempo! O reflexo dos contratos de patrocínio mal administrados é que no final, as contas nunca batem, além do que os departamentos de marketing ficam engessados. Além de emperrar outras negociações de patrocínio, péssimos contratos de exclusividade, acabam voltando-se contra os próprios clubes, pois acabam por impedir, como é o caso do Flamengo, que os esportes olímpicos consigam ser negociados. Ou seja, nada a se fazer a não ser esperar o tempo passar. Li, que a Petrobras, pretende deixar de lado a exclusividade no novo contrato que será assinado para 2009. A verdade é que a empresa não concordou em pagar a quantia pedida pelo clube Rubro-Negro que, agora, manobra para mostrar um interesse maior nos esportes olímpicos, vislumbrando uma forma de faturar em cima da Lei Agnelo/Piva. A liberação dos esportes olímpicos, para o Flamengo, pode ser a chance vislumbrada, a luz no final do túnel da falta de competência. Resta saber se o departamento de marketing, sempre voltado para o futebol, irá abraçar a causa e, realmente, sair para vender ou se vai deixar tudo a cargo da Patrícia Amorim, como foi até hoje! Os patrocínios dos esportes olímpicos, quase em maioria, foram trazidos e negociados por ela. Vide no período dos Jogos Pan-americanos quando a Ortobom encheu de banners a sala de ginástica, pois patrocinava o atleta Diego Hypólito. Me preocupa apenas o fato de que sem dinheiro em caixa, já que a Timemania tem se mostrado um fiasco, os clubes que resolveram agora se unir para moder uma fatia do bolo da verba do Ministério do Esporte, encarem os esportes olímpicos não com a seriedade que merecem, mas apenas como a 'galinha dos ovos de ouro' que levantará recursos para cobrir os rombos orçamentários que corróem a maioria dos times do país. De acordo com o jornal “O Globo”, Flamengo, Fluminense, Vasco, Corinthians, Náutico União (RS), Grêmio, Minas, Pinheiros e Sogipa pretendem fundar o Conselho Nacional de Clubes Formadores de Atletas Olímpicos. A intenção é conseguir parte das verbas da Lei Agnelo/Piva, que atualmente destina ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) 2% da arrecadação de loterias federais. O Conselho Nacional terá tentará junto ao governo federal 30% da arrecadação da Lei Agnelo/Piva, que no último ciclo olímpico rendeu R$288 milhões ao COB. Em nota, o COB diz que a Lei Agnelo/Piva é fundamental para o esporte, mas corresponde a 1/3 das necessidades. Frisa que "Minas e Pinheiros tiveram aprovados para captação em 2009, mais de R$ 39,7 milhões, o que corresponde a verba superior em relação ao que a maioria das confederações alcança por ano". E que "caso as confederações queiram, dentro de suas verbas, apresentar projetos para que os clubes recebam recursos, nesta hipótese, o COB estará de acordo, desde que os projetos sejam aprovados e atendam às exigências da Lei". Como sempre, em toda história restam perguntas que não querem calar - se os clubes de futebol, responsáveis pelas maiores negociações de marketing do mundo na compra e venda de jogadores, estão quebrados, será que os recursos destinados aos esportes olímpicos correm o risco de parar nos poços sem fundos, onde estão as verbas e investimentos advindos do futebol? Se os clubes não têm uma gestão capaz de fechar contratos de patrocínio que dêem possibilidade de novos negócios ao próprio clube, como é que os esportes olímpicos sobreviverão, se é fato que o futebol é o carro chefe? Talvez fosse melhor, em época eleitoreira como a atual, em que se faz de tudo para seguir na gestão, que os times revissem os contratos e os profissionais de marketing dos departamentos e encarassem o futebol como um negócio lucrativo, mas que demanda de inteligência, seriedade na gestão, transparência e trabalho, muito trabalho. É lamentável, quase bestial, a realidade de um time como o Flamengo permita fechar um contrato de exclusividade, cujo valor nunca cobriu as necessidades do clube, o qual além de envolver o futebol, também envolveu os esportes olímpicos da cabeça aos pés, engessando o próprio clube! Outra: afinal de contas, os esportes olímpicos não vendem porque estão dentro dos clubes ou os clubes não vendem os esportes olímpicos porque dão preferência ao futebol? A moral da história, você decide! (ler matérias arquivo Sport Marketing: Marketing do Flamengo ganha prêmio mico 2008; Sport Marketing: Novela Flamengo x Nike termina apenas em dezembro!).


Deborah Ribeiro - Diretora Redação Sport Marketing