13 de nov de 2008

A 'sorte' olímpica de Londres

Em 2012, Londres entrará para a história olímpica como a única cidade na sediar três edições dos Jogos. Mas, também é verdade, que em todas as vezes, a capital da Inglaterra sofreu com problemas externos e internos para realizar o evento. O livro Ouro Olímpico - a história do marketing dos aros (selo COB-Cultural), escrito pelo Superintendente Executivo do COB, Marcus Vinicius Freire e pela jornalista Deborah Ribeiro, destaca que em 1908, "Londres estabeleceu padrões de organização e produção dos Jogos futuros, abrindo um novo capítulo na história olímpica. Londres não tinha dinheiro, mas o Comitê Organizador dos Jogos persuadiu as autoridades da Feira Franco-British Exhibition a construírem um estádio completo com pistas de ciclismo e atletismo, piscina, vestiários e arquibancadas. A Feira pagaria por tudo isso, a um custo de não menos que £44,000, sendo £2,000 referentes aos custos preliminares seriam sob a responsabilidade da Associação Olímpica britânica. Em contra-partida a Franco-British Exhibition receberia 75% da arrecadação de bilheteria. Este notável contrato – do ponto de vista Olímpico - foi assinado por ambas as partes em 14 de janeiro 1907. Algumas fontes sugerem que o custo real de construção das instalações do estádio de Shepherds Bush subiu, tempos depois para £60,000 e, posteriormente, para £220,000 e que a parte da Associação Olímpica britânica ficou em £20,000. O problema seguinte a ser enfrentado foi conseguir capital para as despesas do dia a dia dos Jogos. Uma promoção pública foi lançada, mas ao final de junho só £2,840 haviam sido recolhidos graças a 200 assinantes, a maior parte deles amigos pessoais de Lord Desborough um intelectual da época que tinha forte influência no Comitê Organizador. Faltando duas semanas para o começo dos Jogos, £10,000 faltavam no orçamento para prover as acomodações apropriadas para os competidores. Lord Northcliffe, dono do Daily Mail, um jornal da época, foi abordado por Lord Desborough e relutantemente concordou que seu grupo de jornais patrocinasse um apelo final. A resposta foi fenomenal e doações de todos os cantos da Inglaterra, assim como do exterior chegaram. O Príncipe do País de Gales, o Maharajah Cooch Behar, e o milionário Americano, Cornelius Vanderbilt enviaram doações. Eugen Sandow, deu £1,500, o Governo francês enviou £680, o dançarino clássico Maud Allan fez uma apresentação especial e doou a quantia arrecadada e centenas de doações de valores menores vieram dos leitores dos jornais de Lord Northcliffe. Em uma semana mais de £12,000 foram arrecadadas e os jornais tiveram que implorar aos leitores para não enviar mais dinheiro. A arrecadação total foi de £21,500, sendo que as doações chegaram a um total de £16,000. A despesa incorrida pelos Jogos de 1908 foi de aproximadamente £15,000. Quando os Jogos retornaram a Londres em 1948, a cidade se recuperava das desvastações da guerra. O Comitê Organizador não teve que construir nenhuma obra ou arena. A guerra também trouxe uma mudança completa de valores, acentuada por faltas de materiais e altos custos. A comida fornecida para os atletas veio de variadas fontes. Algumas nações trouxeram comida para o próprio consumo, mas tiveram também muitas doações de nações para o consumo de todos, além de presentes de organizações ou firmas da Grã-Bretanha. Trinta e seis países enviaram comida para os Jogos de Londres, chegando a 160 toneladas. Os artigos eram variados, mas consistiam principalmente de carne, ovos, gorduras e açúcar. O total de comida importada pelas seleções nacionais para uso próprio foi de aproximadamente 300 toneladas. Depois dos Jogos, cerca de 80 toneladas de comestíveis sobraram nos depósitos e foram distribuídas nos hospitais londrinos. Pela primeira vez na história dos Jogos foi assinado um seguro contra o risco dos Jogos serem adiados a qualquer momento e outros seguros com relação a coberturas contra danos de pessoal, riscos, públicos e de terceiros, perda ou dano para equipamento, iates e mortes de cavalos. Anos mais tarde grandes empresas seguradoras como a John Hancock e posteriormente a Manulife fariam parte do programa de marketing do International Olympic Committee - Comitê Olímpico Internacional (COI). A renda estimada foi baseada na venda de ingressos, venda de direitos de tv, programas, concessões de comércio, venda de equipamentos depois dos Jogos etc. Entre as despesas gerais se considerou bilheteria, contabilidade, honorários de advogados, revezamento da tocha, equipamentos técnicos, transportes para o Comitê Organizador, impressão e estacionamentos, serviços médicos, telefones e instalações, trabalhos temporários e substituições, compensação para o Estádio de Wembley, salário de pessoal, manutenção das arenas, seguro, recepção e entretenimento do Comitê Organizador, equipamentos do time britânico, contribuição para o Comitê Olímpico Internacional e uma quantia marginal para despesas diversas, além de um orçamento independente preparado relativo à hospedagem, alimentação e transporte das delegações. A empresa Messrs. Kemp Chatteris & Cia., que tinha sido contratada para fazer a auditoria dos Jogos, trabalhou próximo ao Comitê Organizador e cuidou de toda a contabilidade. Em 1948, despesa dos Jogos totalizou aproximadamente £732,000 e incluíram o custo de hospedagem, alimentação e transportes das delegações que foram à Inglaterra. A arrecadação foi de aproximadamente £762,000. Respeitando as regras do COI, muitas formas de se conseguir recursos não foram permissíveis, por exemplo, a inclusão de anúncios nos panfletos e programas dos Jogos. Deve-se lembrar que o Comitê Organizador não teve que construir nenhuma obra ou arena e pôde usar os locais de competições sem custos." A quatro anos de Londres receber os atletas de todo o mundo, a crise financeira que assola o planeta anuncia que o LOCOG - London Organizing Committee Olympic Games - Comitê Organizador dos Jogos de Londres terá pela frente a difícil missão de tornar os Jogos viáveis, contornar as questões econômicas e não decepcionar a comunidade olímpica, já que Beijing pode ser considerado um exemplo de organização e retorno financeiro positivo. Não é à toa que a ministra britânica,Tessa Jowell, que recentemente esteve no Brasil, reconheceu à imprensa inglesa que o Reino Unido não se teria candidatado aos Jogos Olímpicos de 2012 se tivesse podido prever a atual crise financeira. "Se tivéssemos sabido o que sabemos hoje, teríamos candidatado aos Jogos Olímpicos? É quase certo que não" - declarou Jowell durante um jantar, afirma a edição de hoje do “Telegraph”. Responsáveis do Banco de Inglaterra disseram ontem que a economia britânica já terá entrado em recessão, apesar dos economistas não poderem confirmar esta suspeita antes do início de 2009. O reflexo disso já se sente na organização dos Jogos. O governo britânico reduziu algumas despesas para assegurar que o projeto cumpra o orçamento previsto. Apesar desta situação, vários ministros, como Tessa Jowell, defendem que os investimentos ligados aos Jogos Olímpicos ajudarão a economia nacional. Na sequência da notícia do “Telegraph”, a ministra divulgou um comunicado onde garante ter previamente, em vários momentos, "observado que 2012 foi postulado num dado clima econômico e que hoje se vive outro". "Se a amplitude da degradação pudesse ter sido antecipada, estou certa de que se teria estimado que este não seria o momento para assumir importantes despesas públicas num projecto como os JO" - acrescentou. Boris Johnson, prefeito de Londres, rebateu as declarações da ministra insistindo que os Jogos de 2012 vão "suavizar o impacto da crise, já que Londres será o lugar em toda a Inglaterra que mais sofrerá". "No clima econômico atual, eu creio que Londres é extremamente afortunada por hospedar os Jogos em 2012" - disse Johnson. Ken Livingstone, ex-prefeito londrino, que em 2005 ganhou a candidatura acredita que os Jogos podem protelar o "impacto catastrófico da crise". Já Andrew Boff, porta-voz do grupo da Assembléia Conservadora, solicitou que a ministra renuncie e volte atrás nas declarações. "Em um clima econômico onde o trabalho do governo em atrair investimento privado para financiar os Jogos já é duro, a ministra declarar, publicamente, que a candidatura foi um engano é totalmente irresponsável. Por que o setor privado deve, então, investir milhões nas instalações olímpicas se a ministra responsável não tem nenhuma confiança na viabilidade em longo prazo? Se Tessa Jowell não crê nos Jogos Olímpicos, então ela devia renunciar." - desabafou indignado o membro da Olympic Delivery Authority (ODA). "O propósito fundamental de ter os Jogos em Londres é trazer regeneração para áreas que sofrem de declínio econômico a longo prazo." - comentou Jowell, ao jornal britânico The Guardian. "O que você pode ver é como os Jogos realmente estão operando a regeneração econômica para esta parte de Londres." - acrescentou. Os £9.3bn previstos para os Jogos triplicou com relação às estimativas iniciais e as pressões de uma baixa nos custos está apertando tanto o governo quanto as empresas privadas. “É potencialmente precioso um evento como este para a economia de um país em período de dificuldades econômicas." - concluiu a ministra.

Deborah Ribeiro - Diretora Sport Marketing