23 de out de 2008

Boatos e balelas de marketing esportivo com relação aos Jogos Olímpicos

Tenho lido alguns artigos e notícias com relação à "possível ameaça" da Rede Globo em boicotar
os Jogos Olímpicos de 2010 (Inverno - Vancouver) e 2012 (Verão - Londres), caso a emissora
não consiga negociar a compra dos direitos de transmissão do evento que pertencem, com
exclusividade,no Brasil, à Rede Record.Que alguns veículos veiculem esses boatos ainda vai,mas,
me admiro ao ver que, alguns 'especialistas em marketing esportivo', abrem espaço para esse tipo de notícia, deixando claro a falta de experiência no dealing com veículos de comunicação, em negociações de direitos de transmissão, falta de noção completa de como funciona a máquina que move os esportes olímpicos e, consequentemente, o marketing olímpico. Por isso, vou começar pelo início. A Carta Olímpica, que rege o IOC - International Olympic Committee - Comitê Olímpico Internacional (COI) é muito clara com relação à disseminação do Olimpismo e da imagem dos Jogos Olímpicos. A Carta estabelece como compromisso que as emissoras detentoras dos direitos de transmissão do evento garantam ser capazes de levar a imagem dos Jogos ao maior número possível de pessoas, de graça (tv aberta), assim como pelas mais diversas formas tecnológicas possíveis (canais a cabo, internet, telefonia móvel), a fim de fomentar as ações do Movimento Olímpico mundialmente e, para todas as classes sociais. Além do fator financeiro (a proposta da Rede Record superou a da Globo), este foi um dos pontos primordiais que levaram o COI a vender os direitos dos Jogos para a Record e não para a Globo, que apresenta uma grade de programação estrangulada com novelas, jornalismo e programas. Não é de hoje, que a emissora aberta carioca, principalmente após a fusão com o canal a cabo Sportv, não garante aos esportes olímpicos o espaço que merecem, se restringindo a transmitir as finais dos mega eventos, quando a maior parte das provas e competições são transmitidas pelo canal pago Sportv, da Globosat, o qual boa parte da população não tem acesso. Ou seja, a Rede Globo sempre visou, muito mais do que disseminar a cultura dos esportes olímpicos, os lucros em publicidade que os esportes e os Jogos Olímpicos atraem, passando a ser uma necessidade, para o Grupo, ter os Jogos nas grades de programação, a fim de manter o controle do mercado publicitário. A partir dessa realidade e fato, torna-se quase que impossível que a Globo 'boicote 100%' o evento olímpico! Digo isso, principalmente, porque o jornalismo da emissora, certamente, seria 'obrigado' a mostrar o evento e, consequentemente, mostrar os atletas e resultados dos brasileiros, para não ficar totalmente de fora do momento e não cair em profundo descrédito nacional! Isso sem contar que, os pacotes de patrocínio são de longo prazo e vendidos, muitas vezes, com anos de antecedência - o que significa que alguns patrocinadores de Beijing 2008 ou tantos outros, podem ainda ter créditos para os próximos anos, 'obrigando' assim, a emissora a mostrar os eventos pré-olímpicos ou classificatórios, seja no canal aberto ou a cabo. Além disso, a compra de eventos internacionais também acontecem com antecedência, ou seja, o que já está comprado precisa ser comercializado e exibido. Desta forma, levando-se em conta que a grade da Globo pouco se abre para o esporte, nem os esportes olímpicos, nem a população e, menos ainda, o mercado publicitário irá perder com um 'boicote' - o qual eu não acredito que aconteça 100% e, sobre o qual, estou escrevendo apenas para trazer um pouco de conhecimento da área jornalística àqueles que defendem que o marketing esportivo deve ser tocado apenas e, unicamente, por profissionais de marketing, os quais na maioria das vezes, não têm noção de como funcionam as engrenagens do esporte e dos veículos de comunicação responsáveis pelo retorno dos patrocinadores dos eventos!!! Ou seja, mesmo que a Globo 'boicote' os Jogos Olímpicos, o mercado irá comprar os espaços comerciais dos telejornais da emissora carioca, que, por questões jornalísticas irá mostrar o evento. O lado positivo é que os patrocinadores passarão a maior fatia do bolo de investimentos para a Record ou para qualquer outra emissora aberta ou fechada que tiver uma maior grade de programação voltada para o evento. Falar que haverá perda de visibilidade do principal veículo do país é uma besteria colossal, porque a Globo aberta há muito não é a responsável por garantir a maior visibilidade dos Jogos Olímpicos, perdendo, neste quesito, para outros canais abertos como, por exemplo, a Rede Bandeirantes! A ameaça de 'boicote' não será um grande empecilho para o crescimento do marketing esportivo nacional, muito pelo contrário, haverá sim uma melhor distribuição dos investimentos entre as emissoras que mostrarem o esporte para a maior parte da população que tem tv aberta e/ou entre os canais a cabo! Os cinco canais a cabo que o Sportv da Globosat abre durante os Jogos serviram, até hoje, única e, exclusivamente, como moeda de troca nas negociações do departamento comercial da 'nave prateada' e não privilegiam a maior parte da população que não tem condições de assinar os pacotes da Net! A grade de programação do Sportv e o departamento comercial da Rede Globo e Globosat, sim, vão sentir profunda diferença, se houver o imaginário e absurdo 'boicote 100%' da tv aberta, que alguns desinformados aventam e, caso a Record não acerte a venda do evento nem com a tv aberta e nem com a Globosat! Especula-se no mercado que Record e Globosat já entraram em um acordo, o que salvaria o Sportv de, em 2012, perder o slogan do 'canal campeão', perder os principais patrocinadores e ver a grade de programação despencar! A primeira proposta da Globosat rejeitada pela Record foi de R$ 12 milhões, valor este que, segundo boatos, a Globosat teria aumentado, agora, para R$ 30 milhões (US$ 22 milhões), valor equivalente a mais de sete vezes o montante pago pela empresa pelos direitos dos Jogos de Beijing 2008 (US$ 3 milhões). Já BandSports e ESPN Brasil teriam apresentado propostas menores do que US$ 4 milhões. O valor também supera o que a TV Globo aberta pagou por Beijing: US$ 12 milhões de dólares. A equipe do Jornal Folha de São Paulo apurou que o acordo é praticamente dado como certo. De qualquer forma, esse acerto só poderá ser finalizado, se for, no fim do primeiro trimestre de 2009, obedecendo a prazos estabelecidos pelo COI para o encaixe de patrocinadores e anunciantes internacionais dos eventos e sob a aprovação da entidade. Se a Globosat conseguir comprar os direitos de transmissão dos Jogos a cabo, com exclusividade, sem a transmissão da aberta, o canal volta a respirar no mercado, deixando em maus lençóis a ESPN Brasil e o BandSports! Enfim, muita água ainda vai rolar embaixo dessa ponte, mas as movimentações das peças no tabuleiro das emissoras comprovam que, o Grupo Globo, do qual a Globosat pertence, está optando pela melhor política, ou seja, se render à Rede Record e convencer a emissora do bispo Macedo, da Igreja Universal, quem a Globo que veste a túnica da Igreja Católica, sempre criticou e denunciou, a vender os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos e Pan-americanos de Guadalaraja (2011)! Afinal, depois da criação do controle remoto, da internet e dos aparelhos celulares, a 'nave prateada' tem muito mais a perder com a não transmissão dos Jogos do que o mercado de marketing esportivo e o esporte nacional! Além disso, antes da Globo e do Sportv existir, na época do Luciano do Valle (um dos precursores do marketing esportivo no Brasil) e da equipe do Show do Esporte, da qual com muita honra fiz parte, a Rede Bandeirantes era o Canal do Esporte! Ou seja, as coisas mudam!

Deborah Ribeiro - Diretora Sport Marketing