8 de abr. de 2008

Coluna Olímpica 6: Chama da discórdia

O mundo do esporte e vários membros do Comitê Olímpico Internacional - COI - estão insatisfeitos com os recentes acontecimentos relacionados ao Revezamento da Tocha Olímpica. O que era para ser uma festa mundial dos fãs do esporte, transformou-se em um desfile de violência, prejudicando não apenas a mensagem intrínseca do Fogo Sagrado de Olympia, mas, principalmente, a imagem do Movimento Olímpico. A imprensa internacional especula que o COI poderá suspender o Revezamento da Tocha de Beijing. Mas, nada é tão simples assim. Para tal, o COI também dependerá de um parecer dos patrocinadores do Revezamento, nesta edição: Samsung, Coca-Cola e Lenovo, empresas que pagaram alto para aliar suas marcas ao histórico evento que simboliza felicidade, harmonia e paz entre os povos. A mensagem que o Revezamento dos Jogos de Beijing deixa para a humanidade, vai além de um forte pesar e de um inquestionável insucesso. O Revezamento de Beijing traz consigo a mensagem sublime de que, além de limite, e é necessária uma atuação mais atuante do COI no processo de escolha e determinação do trajeto pelo qual a Chama Sagrada deve percorrer - missão esta que não deve ficar apenas nas mãos do Comitê Organizador dos Jogos. Desde que o Revezamento foi criado, para os Jogos de Berlim em 1936, os Comitês Organizadores tentam
levar o Fogo Sagrado de Olympia ainda mais longe,em mais países e continentes,transformando o evento, em uma desenfreada corrida por um recorde imaginário de maior percurso a ser percorrido, deixando-se de lado as questões subliminares e os valores reais que acompanham a Chama como: união, harmonia, felicidade. A jornada internacional da Tocha até Beijing é a mais longa da história dos Jogos. O trajeto previa passagens por 19 países, com distância total de 137.000 quilômetros. Se por um lado, o Revezamento da Tocha leva consigo pelo mundo a imagem e a disseminação da mensagem do Movimento Olímpico e os valores do olimpismo, por outro lado, na proporção em que o evento acontece despropositadamente, sem um acompanhamento direto e mais impositivo do COI junto aos Comitês Organizadores, a Chama se transforma em uma arma contra os próprios Jogos e contra o próprio COI. A Chama Olímpica acesa em comemoração aos Jogos de Beijing está expiando os pecados da China, pagando as mazelas de um governo ditatorial e, consequentemente, colocando em questão não apenas a política do país sede da vigésima nona edição do evento, mas, também, expondo ao mundo a política e as fragilidades a que está sujeito o COI. É mais do que óbvio que a insistência chinesa em passar com a Tocha pelo Tibet, se trata muito mais de uma necessidade de mostrar superioridade e supremacia aos tibetanos do que, simplesmente, levar a mensagem positiva dos Jogos Olímpicos àquele lugar, que sofre com a impáfia do regime sub-humano ali impetrado pela China. O que os chineses não esperavam, era que o reflexo da leviandade e hipocrisia chinesa afetasse não apenas o sentimento de honra do Tibet e dos tibetanos, mas o sentimento de moral de vários países. A consequência da insistência chinesa em levar a Tocha por terras tibetanas pode ser vista em cada local por onde a Chama Olímpica passa em profundo e infeliz calvário. Se a China queria mostrar ao planeta um lado positivo, conseguiu apenas se desmoralizar mundialmente, além de divulgar-se como uma péssima estrategista em termos de política humana e humildade. As manifestações espontâneas contra Beijing, que ofuscam a passagem da Tocha Olímpica por várias cidades e países, ilustram a crescente capacidade dos exilados tibetanos, que apostaram no apoio da sociedade civil à causa. A luta pró-Tibet conseguiu se infiltrar em diferentes níveis, em escolas, universidades, grupos de defesa dos direitos humanos e da liberdade de imprensa, assim como no coração do poder, em setores ricos e celebridades de Hollywood, como o combativo ator Richard Gere. Os exilados tibetanos formam uma pequena comunidade, calculada em 200.000 pessoas, principalmente no Nepal e na Índia, onde vive o Dalai Lama, chefe espiritual dos budistas tibetanos. Mas, muitos deles, estão envolvidos com redes internacionais que fazem pressão por uma autonomia real e, inclusive, a independência do Tibet. Entre estes movimentos figuram a organização "Students for Free Tibet Campaign", com sede em Nova York, que reúne estudantes e dispõe de mais de 650 seções em mais de 20 países, e o International Support Network, que dirige 250 grupos em todo o mundo. A organização de defesa dos direitos humanos International Campaign for Tibet (ICT), com sede em Washington, mas com escritórios em Bruxelas, Amsterdã e Berlim, é vista como a força motriz da ofensiva diplomática do Dalai Lama. O Dalai Lama, por um tempo, evitado pela Casa Branca e o Departamento de Estado, é hoje recebido de braços abertos nos Estados Unidos, onde, no ano passado, recebeu a medalha do Congresso, a mais alta distinção civil concedida pelo Poder Legislativo. Apesar dos veementes protestos da China, o presidente George W. Bush participou de uma cerimônia que constituiu a primeira aparição pública de um presidente americano ao lado do Dalai Lama. O feitiço chinês se virou contra o feiticeiro. Se fosse nos áureos tempos da mitologia, poderíamos dizer que não se pode mexer com os deuses do Monte Olimpo e sair impune - a China quis usar a Chama Sagrada de Olympia sem humildade e em por causas fora esporte, agora paga o preço por isso. Entretanto, apesar dos públicos protestos favoráveis aos direitos humanos e contra as atitudes da China no Tibet, a população não conta 100% com a força dos políticos e governantes que, temem as consequências de um boicote à cerimônia de abertura e os prejuízos que um ato deste pode significar para os negócios futuros entre os países. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, assegurou não assistirá à cerimônia de abertura. Até a passagem da tocha olímpica pela Grã-Bretanha, onde efetuou um percurso cheio de incidentes, a Inglaterra se recusava a estudar qualquer forma de boicote, para não "misturar esporte com política", num momento em que Londres começa a preparar seus próprios Jogos, previstos para 2012. Ao contrário de vários dirigentes europeus, como o presidente francês Nicolas Sarkozy, Brown havia reiterado que estaria em Beijing em agosto, lembrando que o próprio Dalai Lama rejeitava o boicote, mas parece ter mudado de idéia. Assim ficam os políticos, em cima do mundo, afinal de contas, a China hoje em dia, além de ser um poder armado, é fonte de mão de obra barata, capaz de produzir desde os fofinhos bichinhos de pelúcia vendidos na Disney, aos tênis caríssimos da Nike, vendidos ao consumidor final pelos olhos da cara. Como dizer não a um chamado da China? É por essa e por tantas outras razões que são poucos os membros dos governos dispostos a boicotar a cerimônia de abertura dos Jogos, embora vários povos de vários países gritem estarrecidos por tal providência. O Revezamento da Tocha de Beijing tráz consigo uma lição e servirá para que o COI páre, pense e reveja a forma com que o Fogo Sagrado têm sido conduzido ao longo da história e, principalmente, crie regras de como preservá-lo, do ponto de vista de tradição e conceito, afinal, é com base nos valores que inspiram os aros olímpicos e a Chama Sagrada de Olympia, que o COI vende suas altas cotas de marketing e de patrocínio, assim como os Comitês Olímpicos Nacionais e Comitês Organizadores. Vale lembrar que ao contrário da Copa do Mundo FIFA, os Jogos Olímpicos não comercializa as arenas e nem espaços próximos aos locais dos Jogos. Os valores do olimpismo são a alma comercial do mega evento e não podem passar por motivos de vergonha, dúvida ou vexame, é por isso, entre outros aspectos, que o COI luta, por exemplo, contra o doping - um câncer entre os valores olímpicos capaz de sucumbir com a credibilidade das competições olímpicas. Do ponto de vista de marketing, as empresas ligadas ao Revezamento de Beijing : Samsung, Coca-Cola e Lenovo devem estar com vergonha de terem a marca lincada a uma festa olímpica de chamuscado brilho, causa de manisfestações, pancadaria, revolta em todo o mundo e, pior ainda, um evento marcado pela impáfia e falta de humildade chinesa em não ceder a questões que envolvem direitos humanos em pleno século XXI. Manifestações ocorrem no trajeto desde que a Tocha foi acesa, na Grécia. Depois dos acontecimentos em Olympia, Grécia, Londres e Paris, os ativistas prometem novos protestos em São Francisco (EUA), Austrália, Índia, Tailândia e Japão, nas próximas semanas. "Espero que o Comitê Olímpico reveja o trajeto da Tocha Olímpica no futuro" - disse à Associated Press, Kevan Gosper, membro australiano do Comitê Olímpico Internacional, defendendo que a Tocha Olímpica deve limitar-se a ir da Grécia até ao país anfitrião. Já o presidente do COI, Jacques Rogge, em entrevista à televisão francesa, afirmou que não prevê eliminar o percurso mundial da Tocha Olímpica. "É falso!, não há discussão a respeito", disse Rogge ao programa "Tout le Sport" . "Não prevemos isto", acrescentou em resposta a uma pergunta sobre se o Revezamento da Tocha por vários países poderia ser eliminado num futuro. Outro membro, Alex Gilady, afirmou que o Comitê já tinha discutido o fim do Revezamento Internacional da Tocha e que essa conversa deveria voltar à ordem do dia depois dos recentes incidentes. “Não agora, mas depois dos Jogos” - afirmou. A diretora de comunicação do COI, a britânica Giselle Davies, avançou que não pode dizer "claramente" se "o percurso da Tocha vai continuar como está programado". Em Paris, os organizadores viram-se obrigados a extinguir a Chama Olímpica e a colocá-la no interior de um ônibus para evitar os manifestantes. Em Londres, ativistas tibetanos converteram o percurso da chama numa autêntica "corrida de obstáculos". Após os incidentes de Londres e Paris, o organismo olímpico decidiu reunir-se com urgência em Beijing para discutor uma possível suspensão do percurso mundial da Tocha. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) decidiu retirar a participação das atividades relacionadas com a passagem da Tocha pela Coréia do Norte. Segundo informações da ONU, a porta-voz das Nações Unidas, Michèle Montas, disse que o Unicef tomou tal decisão na semana passada e que havia aceitado participar anteriormente do Revezamento da Tocha Olímpica na cidade de Pyongyang a convite do Comitê Olímpico Internacional como "uma amostra de apoio ao movimento olímpico internacional". No entanto, o Unicef afirmou que "já não está convencida" de que a participação no evento sirva "para chamar a atenção para a situação da infância na Coréia do Norte e em outros lugares". Apesar disso, a agência da ONU acrescentou que "mantém os vínculos com o COI e a intenção de aproveitá-los para chamar a atenção sobre os problemas que as crianças enfrentam no mundo todo". A retirada do Unicef do Revezamento da Tocha Olímpica na Coréia do Norte foi antecipada no domingo pelo jornal inglês "The Sunday Times", que citou como razão da desistência a preocupação de que o Governo da Coréia do Norte usasse o evento "com fins propagandísticos". As agências e programas da ONU trabalham com dificuldade nesse país asiático por causa dos rigorosos controles impostos pelo Governo local, que chegaram inclusive à suspensão das atividades. A retirada do Unicef é mais um revés na até agora complicada viagem do símbolo olímpico pelo mundo a caminho da capital chinesa, depois dos intensos protestos a favor do Tibet e dos direitos humanos na China ocorridos nas passagens da chama. O governo chinês está furioso com os protestos. "As confusões e a sabotagem na passagem da Tocha são um desafio ao espírito olímpico, às leis internacionais e a todos os países que amam a paz ao redor do mundo" - disse Jiang Yu, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. A imprensa estatal chinesa considera essas tentativas de apagar a Tocha uma provocação direta ao país. Ao invés de ocultar os protestos, a imprensa mostra as cenas junto de pesadas críticas aos ativistas. Que a China insista, em pleno século XXI, a posar de cruel na história dos Jogos Olímpicos, que faça sozinha, mas que não leve consigo toda uma belíssima tradição que remonta da Antiguidade Grega, quando as questões políticas eram deixadas de lado em virtude da máxima felicidade de manter a chama do esporte e dos valores humanos acesa e brilhante nos corações das pessoas. Até agora, as lembranças do Revezamento Beijing 2008 são duras, feias e tristes como a própria nação confinada num regime político que parece desconhecer os valores da felicidade e da alegria.

Saudações Olímpicas,

Deborah Ribeiro - diretora Sport Marketing