4 de abr. de 2008

Atletas franceses se inspiram nos Black Panthers (Panteras Negras)

Os atletas franceses anunciaram durante entrevista coletiva à imprensa a intenção de portar um broche (pin) com um pedido por "um mundo melhor" em ocasião da passagem da Chama Olímpica, em Paris,e durante os Jogos Olímpicos de Beijing, em agosto. Os membros da comissão de atletas de alto nível do Comitê Nacional Olímpico e Esportivo Francês (CNOSF), presidido por David Douillet, apresentaram o símbolo, que recebeu o aval do CNOSF. Porém, o uso do símbolo durante os Jogos de Beijing é uma posição a ser estudada, pois na Carta Olímpica, o Comitê Olímpico Internacional (COI) proíbe propagandas (incluisve políticas) nas zonas regulamentadas, ou seja, nas arenas, vila olímpica com pena de exclusão dos Jogos. No entanto, se um atleta participar das manifestações após ganhar uma medalha, não terá que devolvê-la. O mesmo acontece caso os atletas se manifestem ainda no país de origem. "Com este emblema, situamos os valores olímpicos no coração dos Jogos", comentou o saltador com vara francês Romain Mesnil, um dos artífices do movimento de mobilização dos atletas franceses."Temos que devolver aos anéis olímpicos o sentido original", acrescentou. Aqui vale a pena recordar momento histórico de contestação e manifestação política que ocorreu nos Jogos do México. Era 1968! O mundo fervia, com manifestações por toda parte. Na Tchecoslováquia o governo tentou se afastar de Moscou na que ficou conhecida como “Primavera de Praga”. Na própria cidade sede dos Jogos Olímpicos na capital do México, dias antes da XIX edição do evento, cerca de dez mil estudantes ocuparam a Plaza las Tres Culturas em protesto contra a ocupação de militares em duas universidades públicas. A União Soviética invadiu Praga. O líder negro Martin Luther King foi assassinado. O mundo queria mudanças e esse desejo não era diferente no esporte. Nos Jogos no México parrticiparam 5.531 atletas representando 113 países. Os EUA obtiveram 45 medalhas de ouro contra 29 da União Soviética. O Brasil ganhou uma medalha de prata, no salto triplo, com Nelson Prudêncio e duas medalhas de bronze (1 no iatismo, na classe Flyin Dutchman e 1 no boxe, com Servilio de Oliveira). Pela 1ª vez, a pira olímpica foi acesa por uma atleta feminina, a jovem Norman Enriqueta Basilio. A prova dos 200 metros foi vencida pelo afro-americano Tommy Smith, dono de 11 títulos mundiais em corridas de curta distância, assombrando o mundo, pois era a primeira vez, que se alcançava esse recorde em menos de 20 segundos. Arrebatamento semelhante em estádio olímpico só ocorreria 20 anos depois, em Seul, na Coréia do Sul, quando o canadense Ben Johnson correu 100 metros rasos em 9.79 segundos. O bronze ficou com John Carlos, afroamericano e aluno do San Jose State College, da Califórnia, mesmo college de Smith, que liderava a prova, mas desconcertou-se com a performance de Smith e acabou abrindo espaço para o australiano Peter Norman conseguir o segundo lugar. Na hora de subir ao pódio para receber as medalhas, o que aconteceu ali ficou na história do esporte e marcou as imagens dos anos 60. Dois negros americanos de punho erguido, cabisbaixos e descalços, em protesto contra o racismo.“O protesto fora planejado pelos americanos ainda no campus da faculdade,na Califórnia. Caso um deles conquistasse medalha, usaria o pódio como palco para denunciar a desigualdade racial nos Estados Unidos. Assim, entraram juntos na saleta onde os vencedores aguardavam o momento de serem chamados para a premiação e foram cuidar do visual. Para espanto do australiano, que se esmerava em ajeitar a juba e alisar o uniforme, Tommy Smith e John Carlos tiraram os tênis e calçaram meias pretas. Contaram a Norman que fariam um protesto e explicaram que os pés descalços simbolizavam os bolsões de pobreza negra dos Estados Unidos. Em seguida, Carlos enfiou um colar de grãos e Smith amarrou um lenço preto no pescoço. Esclareceram que os adereços eram referência aos negros linchados da história americana. Norman a tudo ouvia, intrigado. Faltando poucos minutos para serem chamados, os americanos se deram conta, frustrados, que Carlos esquecera de trazer o par de luvas negras, elemento essencial do seu kit-protesto. Os parceiros tinham planejado erguer os punhos aos primeiros acordes do hino nacional e sem as luvas o gesto perderia impacto. Foi então que o australiano acordou: sugeriu que Smith e Carlos usassem, cada um em mãos diferentes, apenas uma das luvas do par que restava. E fez mais. Pediu um dos adesivos de defesa dos direitos humanos, que os americanos ostentavam, grudou-o no peito e declarou-se pronto para subir ao pódio. O público que lotava o Estádio Nacional não percebeu de imediato o que se passava. Foi com o semblante carregado que os atletas acompanharam o içamento das bandeiras. Aos primeiros acordes do hino nacional, Smith ainda pareceu entoar a letra. Depois se calou e abaixou a cabeça. Começou, então, a erguer o braço direito enluvado, em sincronia com o braço esquerdo de Carlos. A saudação do black power tinha invadido os Jogos Olímpicos. Norman foi crucificado pela imprensa de seu país e recebeu reprimenda do Comitê Olímpico Australiano. Para Smith e Carlos as conseqüências foram implacáveis e duradouras. De imediato, o Comitê Olímpico Internacional – COI –, proibiu que os dois velocistas tivessem outras participações (ambos estavam escalados para integrar a equipe americana de revezamento) e exigiu a expulsão da dupla da Vila Olímpica. Smith e Carlos retornaram aos Estados Unidos como párias, acusados de introduzir política no olimpismo e de querer destruir o tecido social de seu país. “Mas qual país?”, perguntavam em uníssono. “A América branca diz que somos americanos quando vencemos e que somos negros quando fazemos algo que julga errado.” Apesar dos ataques e do ostracismo, nem Carlos nem Smith mudaram de posição. Quem mudou foi o curso da história. Às vésperas da Olimpíada de 1984, John Carlos foi ressuscitado pelo Comitê Organizador dos Jogos de Los Angeles para promover o esporte junto à juventude negra. Smith foi chamado a treinar uma equipe de atletismo. Em 1999, a faculdade San Jose State, de onde ambos tinham saído três décadas antes, inaugurou uma estátua comemorativa ao gesto dos ex-alunos. E como não poderia haver inauguração sem a presença do terceiro homem, convidaram Norman. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, o brasileiro Diogo Silva, que conquistou um inédito quarto lugar no taekwondo, aproveitou a luta final para fazer um protesto contra a falta de apoio ao taekwondo no país, após perder a medalha de bronze. Ele entrou na luta com uma luva preta dos Black Panthers Panteras Negras), que o juiz o fez tirar. “É um sinal de protesto, da indignação. Por mais que a gente batalhe, nosso sacrifício não é reompensado. Foi meu protesto para que o Brasil veja a dificuldade que o esporte amador enfrenta. A gente merecia mais apoio do governo e dos empresários”, desabafou o lutador.

Redação Sport Marketing