8 de mar de 2008

Coluna Olímpica 3 - Leni Riefenstahl, uma história à parte

Se hoje em dia a venda dos direitos de transmissão dos Jogos é parte importante e primordial da renda do Movimento Olímpico, muito se deve a uma mulher - Leni Riefenstahl. Ela nunca ganhou medalha olímpica, mas sua vida e sua carreira estão ligadas à história do esporte, da fotografia esportiva, das transmissões olímpicas, do cinema, enfim, com a história do mundo. Leni era uma apaixonada pela imagem e pelo esporte. Praticou natação, ginástica, atletismo, tênis, esqui, alpinismo, hipismo, aviação e aos 72 anos, quando já não podia mais subir montanhas, descobriu os encantos do mergulho. Aprendera a virtude da perseverança com os pais. Alfred Riefenstahl era um homem de negócios próspero. A mãe, Bertha Sherlach, também trabalhava meio expediente antes de se casar. Helene (Leni) Bertha Amalie Riefenstahl, foi a primeira filha do casal. Nasceu em 22 de agosto de 1902, no apartamento da família em Prinz-Eugen-Strasse, Berlim. Virou cineasta e quando os Jogos Olímpicos chegaram a Berlim, Leni foi convidada por Hitler a fazer o primeiro filme oficial da história do evento e ajudar na primeira transmissão dos Jogos. Leni, que havia se inscrito para as competições dos Jogos de Inverno (naquela época os Jogos de Inverno e Verão aconteciam no mesmo país, em épocas diferentes), desistiu de ganhar medalhas e aceitou o desafio. Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, o evento teria suas imagens exibidas em telões espalhados em salas de exibições (cinemas) das imediações. Foi o princípio do chamado "public viewing", termo usado para designar a transmissão de espetáculos para as multidões nas ruas ou em grandes recintos. Apenas uma entre as três câmeras usadas pela cineasta Leni Riefenstahl era capaz de realizar uma cobertura ao vivo – somente quando o sol brilhava. Além da direção artística das transmissões, Leni também foi responsável pela direção da primeira película da história dos Jogos Olímpicos intitulada Olympia, uma obra cinematográfica dividida em duas partes. Para a captação de imagens, Hitler deu a Riefenstahl tudo que ela precisou para sua produção: finanças, materiais, força de trabalho. O ditador queria uma película que mostrasse de uma vez por todas a glória germânica. Durante as filmagens de Olympia Leni dirigiu pessoalmente uma equipe de 60 cinegrafistas e usou três tipos diferentes de estoque de películas em branco e preto - Agfa, Kodak (para os retratos) e Perutz. No processo, Riefenstahl inventou ou realçou muitas técnicas de como fotografar atletas praticando esporte. Muito do que é feito agora em termos de tomadas de câmeras e técnicas de filmagem, Leni criou em 1936, como por exemplo, o "slow motion" - movimento lento nas edições de imagens, takes subaquáticos nas provas de saltos ornamentais, takes extremamente aéreso colocando câmeras em balões, takes panorâmicos com câmeras posicionadas em andaimes, ângulos baixos captados de dentro dos fossos que mandou escavar na beira das pistas de atletismo, takes de movimento com câmeras no trilho para dar a sensação de ação rápida. O resultado do filme é considerado um clássico do cinema. No filme, Leni Riefenstahl insistiu sobre o acordo que firmou no qual ela teria total liberdade na produção do filme e como um exemplo deste exercício, resistiu ao conselho de Goebbel para diminuir a ênfase no atleta americano negro, Jesse Owens. Deu a Owens uma quantidade considerável de tempo da tela. Tirou várias fotografias do atleta. Foi jornalística e eticamente correta, afinal, Owens merecia. Leni em 18 meses de filmagem para Olympia usou 400 mil metros de filme na sua câmera Lytax. O filme foi um sucesso, mas o vínculo de Leni com o III Reich a condenariam por toda a vida. A produtora de Riefenstahl evidentemente quebrou junto com o colapso do nazismo e sua carreira virou ruínas. Nenhuma empresa voltou a patrocinar seus trabalhos até a sua morte. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, Riefenstahl foi presa, teve que enfrentar o pêso de ser apontada como aliado ou simpatizante do Nazismo. Os laços próximos a Hitler e seus filmes a tornaram um alvo óbvio. Porém, todas as vezes que seus escritórios e sua casa foram revistados nunca foram encontrados vestígios, filmes, negativos ou fotos que comprovassem que Leni tinha conhecimento ou teria prestado serviços às atrocidades do nazismo e do holocausto. Em 1948 o COI concedeu a Leni Riefenstahl uma medalha de ouro e um diploma pelo filme Olympia que encontra-se entre as várias raridades no Museu Olímpico, em Lausanne, na Suíça. A guerra a afastou das atividades cinematográficas. Leni foi sujeita a investigações até 1952, mas era eventualmente claro que era inocente de qualquer participação nos crimes dos nazistas. Seu papel havia sido documental. Leni se despediu do mundo em 8 de setembro de 2003. Desde 2000, a atriz Jodie Foster tem trabalhado para produzir uma película sobre a vida da cineasta que morreu aos 101 anos, quando ainda mergulhava. Leni Riefenstah é, sem sombra de dúvidas, um capítulo à parte na trajetória do cinema, das transmissões das imagens olímpicas e do foto jornalismo esportivo. A importância da venda dos direitos de transmissão para os Jogos Olímpicos e toda a cronologia das transmissões olímpicas a partir de Los Angeles 1932 até os Jogos Londres 2012, você encontra no livro Ouro Olímpico - a história do marketing dos aros - selo COB/Cultural, editora Casa da Palavra. No dia internacional da mulher, Leni Riefenstah é a personagem que o Sport Marketing destaca para homenagear.

Deborah Ribeiro - Diretora Sport Marketing